Amanhã faz um mês que Wagner foi
deixado só no mundo. Nos primeiros dias dava de ver o medo em seus olhos e as
olheiras das noites mal dormidas, possivelmente com as cenas daquele horror
passando em sua cabeça. Agora até parece normal, brincando no parquinho com as
demais crianças. Pensativa indaguei:
- Do que será que ele se lembra?
- Ele quem? Perguntou a professora do orfanato
mostrando total indiferença.
- Do Wagner. Do que será que ele lembra daquele dia?
- Não sei. Talvez já tenha esquecido.
Fiquei incrédula olhando aquela mulher me dizendo
isso. Não conseguia acreditar que, mesmo sendo uma criança de 5 anos, como o
Wagner poderia esquecer daquela crueldade feita com sua mãe que quase o pegou?
Retruquei:
- Não acho que seja possível. Apesar dele ser uma
criança, ele viu a mãe pedindo socorro sendo morta pelo pai.
- Ele já deve ter esquecido. Veja como está
brincando.
- Ele viu o pai matando a mãe a facadas!
- Talvez ele se lembre de algo, mas quem sabe se ele
entende o que aconteceu naquele dia? Afinal, como você mesma disse, é uma
criança.
Olhei-o novamente brincando com as crianças. Ele
brincava normalmente. De qualquer forma eu não estava satisfeita com as
palavras da professora.
- Talvez não entenda ainda. Um dia talvez entenda.
Ainda acho difícil ele não se lembrar daquelas cenas.
No que a professora confusa, mas interessada,
pergunta:
- Por que diz isso?
Então, convicta da minha afirmação, eu completei:
- Ele correu, agindo por instinto, para a minha casa
gritando por socorro. Meu marido abriu a porta e deixou o garoto entrar. O pai
dele vinha correndo atrás dele. Ia pegar o menino também. Ele também seria
morto pelo pai com a faca. Certeza!
- Ah é? Não sabia dessa parte da história.
- Pois é, o pai dele quase pega ele pela camisa na
porta da minha casa. Foi por pouco.
- Nossa! Foi por pouco mesmo!
Eu via os olhos da professora ficarem surpresos.
- Meu marido trancou a porta. Todos nos trancamos. O
homem estava maluco. Tanto é que ele voltou para a casa deles e se matou a
facadas sozinho também.
Vi a professora com um semblante de horror e pondo as
mãos sobre a boca, prestando atenção no que eu contava.
- Nossa, que horror! - Disse ela.
- Por isso acho que ele se lembra. Não é possível!
Ele pode não entender, mas se lembra.
- Mas ele viu o pai morto depois?
- Não. Não deixamos. Não deixamos nem ele ver a mãe
estirada no jardim cheia de sangue.
Houve um breve momento de silêncio entre nós duas.
Ouvíamos somente as crianças brincando no parquinho.
- Obrigada.
Fiquei atônita, então perguntei:
- Pelo que?
- Por me contar a história dele.
Com um leve sorriso no rosto eu falei:
- Ah, por nada.
- Nós, professores do orfanato, sabemos as histórias
dos órfãos daqui de maneira superficial. Nunca de forma profunda. Por que não
fica com ele? O Wagner parece ser tão bom menino.
Voltei a olhar o menino. Realmente ele era um ótimo
menino. Na verdade, toda aquela família era querida e pacífica até antes
daquele acontecimento horroroso. Sentindo pena eu disse:
- Não posso. Eu já tenho 4 filhos pra cuidar e assim
o dinheiro fica sempre no limite.
- Tudo bem. Mas realmente obrigada por me contar a
história.
Então a professora se afastou. Foi para o meio das
crianças no parquinho. Começou a brincar com as crianças perto do Wagner por uns
10 minutos, mais ou menos. Eu via aquela cena. Não sentia nada. Não pensava em
nada. Apenas olhava as crianças e a professora brincando.
- Hora do abraço! Venham todos aqui. Vamos dar um
abraço bem apertado todos juntos!
Ao ver ela dizendo isso, com aquele abraço coletivo
de todas as crianças e da professora, emocionei-me. O Wagner não seria mais um
menino simplesmente abandonado no mundo aos olhos daquela professora.
Este conto faz parte da história ocorrida antes do meu primeiro livro, que está em
processo de escrita. 😉
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