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Conto: Um copinho de perigo amarelo

Veio um garçom oferecendo um copinho, daqueles de plástico que compramos em camelôs de produtos chineses, contendo abacate batido com um enfeite de camarão. Horas, eu estava acostumada a comer abacate doce com limão de sobremesa, de repente sou apresentada a um abacate salgado. Pior; abacate salgado com um enfeite de camarão no copinho. Não que fosse ruim, mas para mim era uma iguaria que foi seguida por outra iguaria: um prato estranho de arroz negro com mais alguma salada desconhecida para mim. Pensei ser só eu a estranhar o almoço vegetariano do casamento chique em que eu e meus cunhados estávamos.
Para quebrar o gelo que se instaurava, começamos a contar piadas após o almoço em volta da mesa. Estas duravam pouco: a comida tinha sido chique demais e todos ainda estavam com fome. A noiva então trouxe a sua irmã para a nossa mesa, que estava deslocadamente sozinha até então. Esta não estava entendendo nossas piadas de contextos catarinenses e não demorou a encontrar companhia melhor na tela de seu celular.
Conseguíamos ouvir meu sogro discursando em alta voz sobre suas histórias já várias vezes contadas em outros locais. Mas a história em questão que ele contava para os familiares paulistas da noiva me fez prestar atenção na mesa ao lado, a mesa do sogro. Ele contava que já em 1960 o autor, de algum famoso livro do qual não me lembro o nome, falava de uma potência adormecida. Um local onde a população era de quase 1 bilhão de pessoas, muito mais do que o nosso Brasil, USA e Rússia juntos. Meu sogro contava sobre sua população que devia seguir rígidas regras e que não deveriam ter mais de 1 filho por casal, senão uma multa deveria ser paga. Eu já tinha certeza de que ele não falava do continente africano. Todos da minha mesa estávamos antenados. Desconhecíamos aquela história e isso não era comum. Meu sogro falava de uma moeda desvalorizada, mas um mercado de giro enorme, que crescia de tal modo que no decorrer dos anos víamos em nosso dia-a-dia mais produtos fabricados lá. Esse crescimento, segundo o autor do livro, faria aquela população ser uma potência que dominaria o mundo.
Meu marido, com aquela sensação animada de um vencedor exclama:
- Eu sei de qual história ele está falando. É sobre o perigo amarelo!
Meu sogro, discursando como um exímio orador continua:
- Porque o perigo amarelo está se alastrando pelo mundo.
A continuação da história se mostrou irrelevante, pois todos da nossa mesa estávamos gargalhando e imitando a situação a pouco acontecida.

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