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Conto: O assassino, a sobrevivente e o mural de frases soltas

Quando um instinto fala mais alto, um assassinato acontece e o assassino pode ser seu melhor amigo. Será que alguém pode sobreviver ao ataque? Confira neste conto!



Ele era muito divertido. Pegava todas as bolas que jogávamos. Apenas quando cansava ou quando estava muito quente é que pegava a bola e voltava para casa para tomar água, deixando a bola ao seu lado enquanto descansava. A maior diversão dele era fazer com que corrêssemos atrás dele para pegar a bola. Era muito fácil se divertir com ele pois na falta de uma bola, qualquer folha seca maior ou galho serviam para a diversão. Por ser preto, quando era muito quente ficava pouco tempo ao sol. As brincadeiras, durante o verão, duravam somente até a temperatura corporal dele permitir, o que por vezes não passava de quinze minutos intensos.
Por ser tão bom com a bola, não demorou a agradecer pela comida, água e abrigo que recebia, presenteando-nos algum animal morto na frente do carro do meu pai. Estranhamos a atitude dele, pois normalmente quem faz isso é um gato e não um cachorro. Ele acabou com os gambás e gatos que rondavam a casa. Vez ou outra era um pombo ou um pequeno lagarto. Mais engraçado era quando trazia um sapo: voltava com a boca tendo o dobro do tamanho. Apesar disso, quase todo mês aparecia um sapo morto e um cachorro com uma boca enorme lá em casa.
Estávamos protegidos por um cão vira-lata de rua, que veio ainda adolescente lá para casa. Não demorou até ele se tornar o cão comunitário. Ele recebeu este apelido pelos vizinhos, pois ele espantou todos os gatos da rua e fazia rondas pela vizinhança. Teve um dia que uma vizinha disse que ele rosnou para um entregador que veio na casa dela. Ela teve de acalmar o cachorro para o entregador poder sair do carro. Ele realmente protegia todos da vizinhança. Apesar do cão comunitário fazer rondas e vigiar todas as casas, definiu meus pais como seus humanos e a casa deles como seu lar. As brincadeiras só aconteciam na nossa casa.
Ele odiava banhos, mas como vivia por todos os lados, vez ou outra tinha que tomar banho. Éramos obrigados a prender aquele cachorro após os banhos, de preferência num local cimentado ou com pedras senão, na primeira oportunidade que tivesse, estaria ele rolando e se esfregando no chão com areia ou barro vermelho.
Num certo dia, meus pais decidiram transformar a casa deles em sítio. Compraram três galinhas e três gansos. Obviamente o cachorro estava louco para pegar aqueles animais e entregá-los como troféu para meus pais. Uma cerca foi feita e cada vez que o cachorro chegava perto ele recebia uma bronca. Após uma semana, percebendo que o cachorro nada fazia às aves, meus pais compraram mais dois perus que rapidamente se integraram com as demais aves. Eram amigos de cercado. Cercado este feito ao lado da casa, que ainda pegava uma parte da lagoa. A lagoa era o local favorito dos gansos e o local mais odiado do cachorro pois várias vezes quando jogávamos sua bola, ao pará-la, ele acabava caindo na lagoa, molhando-se por completo.
Passaram-se dois dias da estadia dos perus na casa dos meus pais. No terceiro dia minha mãe chegou a me falar que, por mais estranho que pareça, ela estava adorando acordar ao som típico feito por perus: “glu glu glu”. Naquela terça-feira minha mãe tinha conseguido fazer carinho na cabeça dos perus. Eles eram muito dóceis. Talvez até dóceis ou bobos demais. De noite fui para a casa dos meus pais. Perto das 9 horas da noite, ouvimos uma galinha cacarejar e um som de água. Horas, galinhas são animais diurnos que dormem de noite e os gansos não iam, normalmente, nadar na lagoa de noite. Fomos verificar o que poderia ter acontecido. Estava escuro, então munimo-nos de lanternas para enxergar qualquer coisa que fosse. Ao chegar próximo da cerca, pegamos o cachorro cabisbaixo indo em direção da casa, como o de quem sabe que fez algo errado. Na mesma hora meu pai berrou:
- Prende esse cachorro! Ele matou algum animal!
- O que? Fui Baidu! Seu cachorro porco. - Exclamou minha mãe.
Levei o cachorro para ser preso na corrente. Da maneira como ele andou cabisbaixo pelo caminho até a corrente, eu sabia que ele tinha aprontado alguma coisa. Voltei para a cerca, próximo à lagoa. Minha mãe estava paralisada. Por um instante acho que ela chorou. Ela estava olhando um dos perus mortos no chão já duro, o que dizia que o cachorro tinha feito isso já a um bom tempo antes. Dei uma passada rápida pela lagoa e vi que os três gansos tinham se salvado pulando na lagoa.
Meu pai adentrava pelo mato. As galinhas e perus haviam feito uma bela limpa naquela área, removendo qualquer capim ou broto verde que pudesse ter no seu caminho. Com isso foi mais fácil ver meu pai, que logo exclamou:
- Achei a galinha branca!
- Está viva? - Perguntou minha mãe com um pouco de esperança.
- Não. E o outro peru está aqui também. Estão todos duros. Já devem estar mortos a mais de meia hora.
Eu e minha mãe demos a volta no cercado até acharmos o buraco pelo qual o cachorro havia entrado. Ele cavou um buraco no chão e puxou umas pedras de lado para conseguir passar por lá e pegar as aves.
- Eu pensei que o Baidu tinha aprendido a conviver com os animais. - Lamentou minha mãe.
- Eu já imaginava que isso iria acontecer. Até acho que demorou. - Fiz uma breve pausa. Percebi que devia ter apertado a ferida recém feita na minha mãe. Tentei concertar - Não vai chorar né mãe? São animais. Não estavam a tanto tempo assim aqui em casa. O Baidu é um cachorro que vez ou outra traz algum animal morto. Uma hora isso ia acontecer.
- Eu vou matar esse cachorro!
- Amanhã de manhã esse cachorro morre. - Disse meu pai.
Eu fiquei assustada. Gostava demais daquele cachorro. Apesar de ser caçador, ele brinca com a bola como jamais outro cachorro que tive fez. Ele cuidava da casa muito bem. Não julguei justo o cachorro morrer por tão pouco.
- Eu levo ele para minha casa.
- O que? Vais levar ele para tua casa, lá no centro? - Perguntou meu pai incrédulo.
No fundo eu sabia que meu pai também gostava dele. Aquele cachorro sempre era companheiro em tudo que meu pai fazia. Talvez este seja o motivo do cachorro sempre ter deixado os animais mortos na frente da porta do motorista da caminhoneta do meu pai.
- Vou sim. Eu estava querendo pegar um cachorro. A casinha de cachorro até está limpa. O Baidu lá vai ser bom para mim e para vocês.
- Você tem certeza? - Perguntou meu pai - Ele não vai incomodar os cachorros do prédio da frente?
- Aqueles cachorros latem por qualquer coisa. Até quando eu passo na frente. São os donos deles que vão ter que fazer algo a respeito. Eu sei que o Baidu não late por besteira. Muito menos para um cachorro que não faz nada.
- Leva filha. Leva ele embora daqui. Senão eu mato ele amanhã! - Disse minha mãe ainda em fúria.
- Calma mãe. Não fica assim.
Como meu irmão chega após as 11 horas da noite em casa, ele nada percebeu. Somente no outro dia ele me mandou uma mensagem que dizia:
- Quer dizer então que o Baidu matou geral aqui em casa ontem?
- Sim. - Respondi - Os gansos só se salvaram porque pularam na lagoa. A mãe ficou muito brava. Baidu está lá em casa agora.
- Eu vi que o cachorro não estava mais aqui. Ele não veio comer.
- Não, está lá em casa.
- Avisou a vizinha?
- Já avisei.
- Caramba, uma das galinhas sobreviveu. A outra ainda não achamos.
- Sério?
- Sim. Me pergunto como isso. - Dizia meu irmão - Como o cachorro não pegou ela?
- A outra capaz de ter fugido. Não achamos as duas galinhas marrons ontem de noite. Mas que bom que uma sobreviveu! – Exclamei -. A mãe deve estar menos triste.
- É, ela está mais conformada agora.
Instantes depois, contei a façanha do meu cachorro para alguns colegas de trabalho. Não demorou muito para eu entrar no mural de frases soltas da empresa:
"[...]de noite quando fui no mato, já tinham dois perus duros, mas não chegou ao ponto de afogar o ganso.

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