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Conto: Carinho de leve

A morte de um familiar e a disputa pelos objetos do mesmo por vezes faz com que tenhamos uma sobrecarga de sentimentos. Pode uma rápida terapia canina amenizar essa dor? Confira neste conto como se desenrola esta história!

Quando os interesses pessoais falam mais alto, por vezes a instituição família é afetada. Meu pai morreu já fazem 9 meses, mas ainda sou obrigada a todos os dias ir na casa dele para ajudar a remover os objetos de dentro da casa. Vamos vender a casa, então eu e meus outros 4 irmãos estamos fazendo uma limpa: removendo todos os móveis, roupas e objetos de dentro de casa. Acho que a parte mais difícil será quando tivermos que remover o orquidário. Apesar de já termos removido umas 50 orquídeas, falta remover mais outras 100. O problema é o espaço, onde colocá-las? Quem tem espaço para tantas orquídeas?
Num desses dias, fui à casa do meu pai e vi um cachorro na casa ao lado. Ele era forte apesar do porte médio e tinha uma cor preta que brilhava no sol. Era realmente lindo. Enquanto eu amontoava alguns velhos livros que me interessavam, olhava pela janela e via um cão que brincava sozinho. Ele pegava a bola, balançava a cabeça e soltava a bola contra a parede, correndo atrás dela logo após soltá-la. Fiquei alguns minutos o observado e rindo das brincadeiras que fazia sozinho com a bola. Quando um carro passava pela rua, o cão ia até o portão e vendo que não eram seus donos, voltava choramingando: ou até sua cama ou pegava a bola e voltava a brincar. Era divertido ver aquilo. Ele, visivelmente, não estava acostumado com sua nova casa, mas sempre repetia a cena. Fiquei pensando se ele poderia me trazer a bola para que eu jogasse para ele. Lembrei que meu filho disse que, apesar do cão ter matado alguns animais em sua antiga casa, era dócil e brincalhão. Depois eu tentaria jogar a bola com ele.
Quando finalizei a escolha dos livros que levaria para a minha casa, desci as escadas e percebi que uma antiga mesa de madeira com cadeiras cheias de detalhes talhados não estava mais lá. Algum dos meus irmãos deve tê-la levado e nada tinha me dito. Dei uma volta pelos quartos, que agora estavam vazios em sua maioria, lembrando-me de momentos que passei junto aos meus pais: na sala de estar onde os netos, quando reunidos, almoçavam, pois na mesa talhada da sala de jantar não havia mais lugares disponíveis; no banheiro social com detalhes em granito amarelado onde a torneira era dourada e de uma forma bem antiga, daquelas que temos vontade de levar junto para a nossa casa mas que destoaria completamente em outro lugar senão a casa do meu pai; da sala de TV que depois foi transformada em quarto quando minha mãe teve câncer e já não tinha mais forças para subir as escadas; da sala de jantar, onde tudo acontecia mas que naquele momento me lembrou da última valsa, tocada pelo Roberto Carlos, dançada pelos meus pais juntos; da cozinha onde minha mãe fazia aquele bolo de amendoim delicioso, cheio de camadas do qual aprendi mas nunca ficou igual ao dela; e finalmente cheguei à porta que dava para fora da casa, onde eu via aquele cão choramingando a falta dos seus donos e logo depois voltava brincando com a bola todo alegre. Uma lágrima me correu o rosto após aquelas lembranças.
O cachorro me viu. Começou a balançar o rabo de forma frenética e veio até a cerca que separava a casa do meu pai e a casa onde meu filho mora. Havia um desnível que fazia com que o chão, da casa onde eu estava, ficasse uns 80 centímetros mais alto que o chão da casa onde o cachorro estava. Isso fez com que ele ficasse em pé, sobre duas patas lá na cerca. Ele não latiu, ele não me conhecia, mas parecia saber da carga emocional que eu sentia. Fui até lá e passei a mão sobre sua cabeça fazendo um carinho de leve, com receio de ser mordida. Ele choramingou, como se dissesse para eu continuar o carinho que fazia nele, mas de forma mais intensa. Fiquei alguns minutos lá com o cão. Quando soltei ele, falei:
- Pega a bola Baidu!
Ele não fez nada além de balançar o rabo de forma frenética. Apontei onde a bola estava. Vi ele sair correndo até ela, pegar a bola na boca, mas não a trouxe para mim. Voltou a brincar sozinho, como se percebesse que aquela sessão de terapia que fez comigo foi tempo suficiente para eu levantar e seguir em frente.


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Se você gostou dessa história, que tal dizer o que achou sobre ela? Até mais, 😊

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