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Conto: A louca da bola de cristal


Faziam 3 dias que havíamos descido do terceiro para o segundo andar e estava sendo um inferno. Uma equipe de sete programadores e uma testadora havia sido emprestado da equipe de desenvolvimento para a equipe de customizados, ou se preferir: fábrica de software. As pessoas das equipes de marketing e vendas nos olhavam como se fossemos ogros ou extraterrestres. Éramos uma distopia em meio a saltos alto e roupa social. Nossas atividades junto ao desenvolvimento não estavam completamente acabadas então era comum, nesses três dias, que uma gerente de projetos ou um arquiteto de software vinham conversar conosco para discutir ou revisar algo que havia sido feito enquanto desenvolvimento.
Para completar, eu havia sido contemplada com uma mesa onde o armário abaixo da mesa estava trancado. Procurei chaves que pudessem abrir o armário para poder colocar minha bolsa e meus pertences no armário, mas nenhuma chave que eu encontrava o abria. Por fim, naquele terceiro dia o homem que cuida dos bens patrimoniais havia vindo na minha mesa para arrombar aquele armário. Removi todos os teclados, mouses e suportes de notebook; enfim eu tinha um armário para guardar meus pertences. Cuidadosamente coloquei aqueles equipamentos ao lado da minha mesa; eu devolveria para a equipe de TI assim que fosse possível.
Naquele dia eu discutia com uma gerente de projetos e um arquiteto de software sobre alguma pendência. Para ficar mais à vontade, a gerente de projetos deixou o notebook dela ao lado da minha mesa. Era um peso desnecessário para segurar naquele momento e discutíamos sobre algo que faltava para terminarmos algum projeto. Sem mais nem menos, aparece uma mulher ao meu lado interrompendo nossa reunião improvisada, exclamando com toda a razão do mundo:
- Quem lhe deu permissão para abrir este armário? Esta mesa é de um consultor!
Fiquei indignada com a interrupção e mais indignada com aquelas palavras. Na minha mente eu imaginava uma louca arrogante. Tentei explicar a situação de forma sutil:
- Desculpa, mas desde segunda-feira estas mesas são nossas. Estamos alocados aqui e usando as mesas sem previsão de sair daqui. Eu mandei arrombar porque não encontrei chaves para o abrir. Eu queria colocar minhas coisas dentro do armário.
- Você não podia ter feito isso!
- Mas estas mesas foram alocadas pelo gerente para nós. Estamos usando elas desde segunda-feira.
- Do mesmo jeito. Estas mesas têm dono!
Naquele momento eu já estava começando a virar camaleão, mudar de cor no rosto de branco para vermelho. Vermelho de alguém que estava quase perdendo a compostura por causa de uma arrogância sem medidas. Eu devia parecer um termômetro com a raiva subindo pelo corpo.
- Tens razão, essas mesas têm donos. E desde segunda-feira somos nós os donos delas.
Aquelas palavras saíram da minha boca como um tiro certeiro. Eu estava segura de mim.
- Você tinha que ter falado comigo se queria a chave do armário! Tinha que falar comigo para abrir o armário!
Meu termômetro estava prestes a explodir.
- Ah minha querida, desculpa. Eu não sabia. Minha bola de cristal não estava funcionando!
Foi meu ápice. Eu nunca tinha passado por uma situação mesquinha dessas. Mas vi que aquelas palavras a atingiram. Eu havia vencido aquela batalha entre ogros e engravatados perto do meu limite de sanidade. A louca pegou os equipamentos que eu coloquei ao lado da minha mesa e levou-os de forma brusca para algum outro lugar que não me interessava.
- Nossa. - Disse o arquiteto.
A gerente de projetos e o arquiteto de software estavam com olhos arregalados. Não estavam acreditando naquela situação.
- É pessoal. Aqui é bem diferente do terceiro andar.
Continuamos a nossa reunião improvisada até terminarmos aquele assunto. Não haveriam mais pendências do projeto.
- Então ficamos combinados assim. - Disse a gerente de projetos - Fico aguardando a tua providência dizendo que está tudo liberado e concluímos o projeto.
- Sim, pode deixar. - Respondi a ela.
Então os dois se prepararam para voltar para o terceiro andar. Devolveram as cadeiras emprestadas para seus locais, pegaram suas anotações. No que a gerente de projetos se dá conta de que o notebook dela não estava mais no local onde havia deixado.
- Onde está meu notebook? Estava aqui antes!
Eu logo emendo:
- Olha, eu não sei. Mas do jeito que as coisas são nesse andar, eu não duvido que aquela louca da bola de cristal de antes tenha levado o teu notebook junto com as coisas que estavam no armário.

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