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Conto: Por falta do guarda-chuva

Pode ainda ser uma minoria, mas o número de mulheres que trabalham no setor de informática está aumentando. Sempre existe a primeira, a precursora da empresa, o primeiro colírio em meio ao império masculino. Elas começam pequenas e quando os homens veem, já estão brigando de igual para igual com as mulheres. Neste meio, o preconceito deve ser vencido, mas até que isto ocorra boas histórias são contadas. "Por falta do guarda-chuva" é uma história dividida em dois capítulos de uma estagiária que cresceu, mas até lá passou por uma situação engraçada. Confira neste conto! 😃


Capítulo 1 - A garota precursora

Havia pouco tempo que ela começou a trabalhar aqui. Era o seu primeiro emprego. De maneira alguma queria ela fazer feio frente a tantas pessoas ainda desconhecidas. Uma garota para este trabalho era raro. Quando eu dizia para meus amigos que uma garota tinha começado na empresa, logo vinham as piadas:
- Só pode ser feia! - Diziam meus amigos. Logo emendavam - Se for bonita, então é lésbica.
Este estereótipo machista imperava aqui, afinal somos todos homens. Não tínhamos experiência com mulheres trabalhando no nosso meio.
Ela era a primeira de muitas mulheres que em alguns projetos de desenvolvimento, num futuro próximo, viriam a ser a maioria. Dá para imaginar? Mulheres sendo a maioria em projetos de desenvolvimento de software? Pois é, eu vivi para ver isso!
É difícil até de imaginar um projeto com seis mulheres (entre programadoras, testadoras, documentadoras e analistas) com um ou dois estagiários homens, onde os homens seriam oprimidos com conversas sobre as unhas delas, cabelo, sapatos e bolsas. História verídica. Eu veria isto acontecer num futuro não muito distante onde a garota, que a pouco tempo entrou nesta empresa como estagiária, será a analista de sistemas. Sim, a garota que chegou não querendo fazer feio, passará por todas as fases de programadora e se tornará analista de sistemas. Se eu não visse acontecer, eu não acreditaria.
É mulher, certo? Ninguém espera que uma mulher saiba especificar um software como um analista deve fazer, ou que saiba pensar e programar um software de maneira correta. Todos pensam que mulher vai programar tão bem quanto dirige um carro ou joga no videogame: mal pra caramba! Mas não, num futuro próximo eu e todos os meus amigos vamos engolir cada uma dessas palavras. Vamos ver alguém fazendo "pitocagem" na estrada, nos perguntando se o motorista era uma mulher e nos surpreenderemos quando vermos que o motorista daquela barbaridade é um homem. Vamos ficar desolados vendo as mulheres nos vencendo nos videogames, conseguindo um score recorde em menos tempo do que fazemos. Cozinha? Fogão? Estes são alguns dos objetos que vou ver elas querendo passar tão longe quanto nós homens. Mas até lá fico aqui assistindo esta garota crescendo.
Nas sextas-feiras temos um ritual sagrado de confraternização. Chama-se cuca de sexta-feira. Lá pelas 15 horas reunimos todos aqui do setor para confraternizar. Comemos uma bela cuca, com alguns salgados e refrigerante, aqui na área comum da empresa. Mais uma vez vou viver para ver um amigo falar:
- Meu cara. Batemos o recorde de mulher na cuca! Estamos em quinze já!
Fico aqui imaginando: quinze mulheres na cuca sagrada de sexta-feira. Quinze mulheres no meio de um local de domínio masculino. Desta forma elas vão dominar nossa área! Aquela garota será a precursora. Ela será a culpada, de querer ser diferente e começar um processo de dominação da área de desenvolvimento de software. Mas que culpa ela tem?
Na verdade, eu não posso reclamar. Vejo homens o dia todo, por tanto tempo. De repente reclamo que um colírio para os meus olhos será a precursora de um movimento onde terei a possibilidade de escolher qual colírio admirar? Pensando bem, tomara que este futuro chegue logo.


Capítulo 2 - Sem o guarda-chuva

Estávamos no terceiro mês do ano. Todos aqui do sul do Brasil já estamos acostumados com dias muito quentes de verão e chuvas torrenciais no fim do dia em março. Aquele seria mais um dia comum de verão. Prevenidos, quase todos aqui na empresa tínhamos um guarda-chuva num local próprio para guardar guarda-chuvas. Ficavam todos amontoados, sem identificação, no mesmo local. Aquela estagiária nova, que era a precursora de um movimento que eu aguardava com entusiasmo, também tinha o dela.
Os problemas começam quando a chuva começa a cair a partir das 16hs. É justamente a hora que as pessoas começam a ir embora. Não temos um horário fixo de início e fim de expediente, desde que entreguemos tudo no prazo e com qualidade. Quando a chuva cai, forma-se uma fila de pessoas para pegar seus guarda-chuvas. Ele é realmente necessário para enfrentar o volume de água que cai no lado de fora, a menos que você não ligue de pegar um ônibus ou entrar num carro encharcado.
As aulas na faculdade próxima da empresa começam entre 18:30hs e 19hs, dependendo do curso. Para o curso de ciências da computação a hora de início das aulas era 19hs. Como chovia, a estagiária começou a se preparar para deixar a empresa às 18:30hs. Assim como na empresa, no curso superior que cursava ela também era minoria. Foi em busca do seu guarda-chuva, mas por infelicidade do destino o mesmo não se encontrava no local onde o havia deixado. Alguém havia pego o guarda-chuva da estagiária, que era identificado com seu nome, e deixado nada para ela usar numa chuva como daquele dia. Não respeitam nem a identificação de um guarda-chuva!
Como eu fazia o mesmo curso, minhas aulas também iniciavam naquele horário. Ofereci-me para dar carona para ela até a faculdade. Seria ruim ver uma das poucas garotas do curso chegar toda molhada na aula. Com o aceite dela, fomos juntos até a faculdade mas antes disso ela se dirigiu novamente até o computador de trabalho e começou a digitar um e-mail que todos do setor receberiam. Este e-mail viraria piada, mas eu só o leria no dia seguinte. Dizia:

"Prezados,
O guarda-volumes dos guarda-chuvas é de uso comum, mas bom senso é bom e todos gostam. Se o guarda-chuva não é seu, não pegue!
Fui até o guarda-volumes e dei por falta do guarda-chuva. Por favor, devolvam-no pois não tenho outro."

Rindo, o colega de trabalho que sentava ao lado dela falou:
- Poxa estagiária! Não precisava ter dado nada por causa de um guarda-chuvas! Podias ter pedido o meu emprestado.
Outro já emendou rindo também:
- A faculdade é no caminho da minha casa. Próxima vez não faça promiscuidades por causa de um guarda-chuva. Te dou carona de carro. E se esse for o caso eu te compro um guarda-chuva.

As piadas foram machistas, eu sei. Mas aquela frase do e-mail dela também não ajudava. Por fim o guarda-chuva jamais retornou para o guarda-volumes, mas todos contamos esta história rindo para as novas gerações de estagiários, inclusive a agora analista que nem fica mais constrangida. Ainda assim alertamos todos para não "darem" por falta de um guarda-chuva. 😃

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