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Conto: O amigo sabichão da tapada

Ele era emocionante, divertido, organizado e eficiente. Sempre me lembrando dos meus compromissos. Eu não gostava de almoçar sozinha. Pensando bem, eu odeio almoçar sozinha; sabendo muito bem disso ele aproveitava e sempre vinha comigo e me entretinha: fazia-me rir, chorar e às vezes até assustada eu ficava. Mas se não fosse almoçar na companhia dele, de quem seria?
Não parava de falar um minuto sequer. Eu simplesmente não tinha voz. Ele sabia de todas as novidades: as melhores séries e filmes para ver, os melhores livros para ler, o que a atriz e o ator do momento tinham feito e às vezes até sobre o mundo ele me contava. Falava demais a ponto de eu não lembrar de metade do que tinha me dito horas depois do almoço. Estava sempre bem vestido, bem arrumado. Era tão bom que depois de um tempo eu só tinha vontade de ficar na presença dele. Coisa essa que me fez perder o foco várias vezes durante o trabalho e, como se não bastasse, atrasar alguns projetos que dependiam de mim.
Por vezes, para me manter focada, acertadamente me dava uma trégua parecendo sério ou dava algum recado importante; em dias assim eu até permitia que ficasse comigo na sala de trabalho.
O tempo foi passando e eu parecia só querer a companhia dele, já havia me acostumado até que ele soubesse mais sobre mim e as pessoas a minha volta que eu mesma, e a essa altura acreditava mesmo que não conseguiria viver sem meu amigo eficiente e sabichão, mesmo me sentindo desanimada e fracassada, o que claramente não o importava.
Num certo dia, durante o almoço, eu quieta o observava falar e falar como de costume. De repente recebi uma mensagem que dizia: “Sentimos a sua falta ontem na minha festa de despedida amiga.”. Naquele momento uma faísca de algo parecido com um pensamento se atreveu a entrar em minha consciência e sem que ele percebesse, ele me disse: - Sua tapada! Você não percebe que não importa o que faça, nunca saberá tanto quanto ele? Livre-se de seu conhecimento superficial.
Maldito!!! Num instante peguei-o com vontade e o atirei na estrada que na frente do restaurante passava. Era uma estrada movimentada e logo foi amassado por uma fila de carros que passou, chamando a atenção de todos que estavam na área aberta do restaurante. Fazendo de conta que nada havia ocorrido, continuei meu almoço tranquilamente e em seguida retornei ao trabalho sem sentir o mínimo de culpa; aliás, sensação de alívio foi o que se estabeleceu naquela tarde; mantive o foco no trabalho, adiantei o trabalho dos projetos atrasados e até saí com o pessoal do trabalho após o expediente.
Já no happy hour, encontrei um colega de trabalho meu que nunca tinha me conduzido uma palavra; logo partiu dele um boa noite animado e a seguinte pergunta:
- Foi você que atirou o celular na estrada hoje de meio-dia?
Eu disse: - Sim.
Sorrindo sagazmente ele continuou:
- Muito prazer, eu sou o Patrick que trabalha no setor de informática. A propósito, apesar de gostar de mulheres com atitude, da próxima vez me dá o celular que eu formato e o vendemos.